quinta-feira, 20 de agosto de 2009

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"Sou uma espécie de paranoico ao contrário. Suspeito que as pessoas conspiram para me fazer feliz." J. D. Salinger

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

No Cariri

Andava com saudade deste sol faiscante do Crato. É sob ele que flano pelo centro da cidade, o que se faz em dez minutos, em busca de rostos, gostos e cheiros conhecidos e, claro, de frases e almas surpreendentes. Nem sempre se encontram.

Tenho lambido meu afilhado diariamente. Ele parece que já me reconhece. Sorri gratuitamente para mim. O gostoso do sorriso de uma criança é que nele não vêm uma segunda ou terceira intenções. E é um sorriso banguela muito mais bonito do que qualquer dentadura reluzente. Os dentes nascem e com ele a malícia que corrompe o sorriso.

Cortázar

Acabei de ler "A Volta ao Dia em 80 Mundos". Foi a primeira vez que li Julio Cortázar. O livro é uma sucessão de impressões do escritor belgo-argentino sobre literatura, música, comportamento. Ainda não entendi bem o que ele chama de cronópio, mas vou me identificando com algumas definições.

Eis um trecho extraído da página 172:

"Nietzche, que era um cronópio como poucos, disse que só os imbecis não se contradizem três vezes por dia. Não se referia às falsas contradições que quando se arranha um pouco são hipocrisia (o senhor que dá gorjeta na rua e explora cinquenta operários em sua fábrica de guarda-chuvas), mas à disponibilidade de bater com os quatro corações do polvo cósmico que funciona cada um por seu lado e cada um tem a sua razão e impulsiona o sangue e sustenta o universo, esse camaleonismo que todo leitor encontrará e amará ou odiará neste livro e em qualquer livro em que o poeta rejeita o coleóptero."

OU

"... ninguém pode saber quantos mundos há no dia de um cronópio ou de um poeta, só os burocratas do espírito decidem que seu dia se compõe de um número fixo de elementos..."


Tem muitas outras incontáveis coisas nas 179 páginas que gostaria de reproduzir aqui. O livro é da editora Civilização Brasileira, uma edição pocket do mesmo comprimeiro daqueles da L&PM, porém mais estreita. É um tamanho que cabe MESMO no bolso.

Do Cariri

Tô sem internet na casa de meus pais, o que compromete a atualização do blog. E, sinceramente, tenho pouca coisa pra contar e ando sem inspiração para cavar o lírico do cotidiano. Tô de férias, carai!

A viagem Rio - Crato durou 15 horas. Foram cinco de avião, no trajeto Rio-Brasília-Fortaleza. Parei na capital para almoçar na casa de meu padrinho e pegar uma encomenda.

Parêntesis: minha família tem a mania de mandar coisas que podem ser compradas na esquina. É chato e só a vontade de dar trabalho aos outros justifica. Mas tem que levar e trazer encomenda, sob pena de provocar antipatias.

Depois de pegar a encomenda fui para a rodoviária de Fortaleza. Havia dois horários de ônibus para o Crato: às 21h, um executivo que, segundo o vendedor de passagens, não parava; às 20h, um pinga. Tive um acesso de masoquismo e comprei cadeira neste ônibus. Fiz pior: no assento 44, em frente ao banheiro. Sobrevivi ao teste de paciência. Foram DEZ horas na BR-116 - que é um buraco com trechos de asfalto - parando em quase todos os municípios: Limoeiro do Norte, Jagaribe, Icó, Aurora, Barro, Mauriti, Porteiras (que fica ao sul do Crato, ou seja, eu passei para depois voltar), Missão Velha, Barbalha, Juazeiro do Norte e, last but not least, Crato.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A causa à espera de um(a) líder

A ex-ministra e senadora Marina Silva (PT-AC) pode se filiar ao PV para se candidatar à Presidência com um discurso verde, de desenvolvimento com sustentabilidade ambiental.
Não existe vácuo na política. E muita gente (eu, inclusive) quer votar em quem pensa em produzir emitindo menos carbono, com energias renováveis e preservação ambiental.

O PV disse que tem uma pesquisa nacional apontando 12% de intenções de voto na companheira de Chico Mendes. Não ganha a eleição, mas faz um estrago, principalmente no discurso feminista da candidata do Lula, a Dilma Rousseff. Mas Marina também deve pescar votos à direita. Tanto a chefe da Casa Civil, quanto o governador José Serra, possível candidato da oposição, entoa a mesma ladainha: crescimento, juros menores e petróleo. Agem como se a Amazônia fosse deles.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Bem-aventurados aqueles que sabem viver

Economizei anos de análise agora há pouco. Entrevistei um psicanalista (!!) gay que adotou um menino. Ele disse que todo pai ou mãe, mesmo que biológico, deveria "adotar" o próprio filho. Dar amor, carinho, proteger, enfim, tentar exercer o papel de pai/mãe com o máximo de competência possível. Segundo ele, isso evita muito problema mais tarde.

(parêntesis): Lembrei o que disse, recentemente, o ator Wagner Moura, que é pai. Ele afirmou que a violência no Brasil tem muito a ver com a ausência dos pais em todos os sentidos. Super concordo.

Continuando:

O filho adotivo, que já tem 13 anos, insistiu em falar. Fiquei surpreso: adolescente tem vergonha de câmera. Fissurado em computador e flamenguista doente, ele disse que é "zoado" pelos "amigos" por ter dois pais (o psicanalista tem um companheiro), mas que tenta explicar pros colegas que isso é natural. E mais: disse que ama muito os pais e que quer viver com eles "até morrer".
Engasguei. O garoto sorriu. Deve ter visto que eu também preciso de família, de pai, de mãe, de colo. Ele já tem, obrigado. E você?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Atenção, senhores passageiros


Acima, eis o Quixadá no lusco-fusco, terra dos monólitos, terra dos Queiroz, terra que vejo da janela do ônibus em direção ao Cariri do meu Padim.


Fortaleza - Maracanaú - Quixadá - Quixeramobim - Acopiara - Iguatu - Várzea Alegre - Farias Brito - Crato.
O negrito informa: o Ceará é indígena, aliás, Siará, o canto da jandaia em tupi.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Enquanto o sol não vem"

"Enquanto o sol não vem" é um filme que eu entenderia se fosse francês. Como não sou, gostei sem motivo para tanto. É ruim, mas é bom, entende?
Foi a primeira vez que vi Agnes Jaoui, que atua, dirige e fala de política nas horas vagas. É dela esta frase do carai: "Acho estranho rico pedir voto a pobre". No filme, Jaoui interpreta uma feminista que vira personagem de um documentário feito por dois malucos que ainda estão aprendendo a operar a câmera.

"À Deriva"

Quero falar apenas uma coisa de "À Deriva", novo filme de Heitor Dhalia, o mesmo de "Cheiro do Ralo": as locações valem cada real dos 18 cobrados no Arteplex de Botafogo. Ver Búzios e Arraial do Cabo pela película dá vontade de correr e abraçar o mar.

Um pouco de tudo, um muito de nada





Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Oscar Wilde, Fause Haten e Luiz Gonzaga têm a ver comigo.

Meu alterego está em qualquer coisa de intermédio entre esses caras. Ou não.

Até eu me espantei com o narcisismo deste post. Viver numa sociedade liberal depressiva (Roudinesco,1999) não faz bem pra cabeça, nem pra sobrancelha.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Hegemonia

Nesse domingo, foi a vez de o Estadão pedir o fechamento da TV Brasil _a Folha já havia feito isso na sexta-feira. Os dois jornalões afirmam que a emissora é um desperdício de dinheiro público.

Já argumentei que a televisão pública preenche espaços essenciais na comunicação brasileira, entre eles a divulgação de produtos de qualidade intelectual superior à tríade reality show, dramaturgia foletinesca e jornalismo factual, que abarrotam o veículo nos dias que correm.

Mas quero agora responder brevemente ao subtexto dos dois editoriais. Há muito, os jornalões perderam o tempero da civilidade nas páginas opinativas. É preciso mais elegância e menos ponto de exclamação. Folha e Estadão parecem imprimir a histeria de uma elite paulistana que está perdendo sua prerrogativa de lançar modas, tendências e valores. Não adianta, hoje, a vanguarda do país é a Banda Calypso (Digite no Google "Chris Anderson", "Free" e "Calypso").

O Brasil é cada vez mais Exu e cada vez menos Praça da Sé _também no sentido religioso. Saravá.

Filmes

Assisti a dois "filmes de arte" nesse fim de semana: "Enquanto o sol não vem" e "À Deriva". Já, já, direi de que se tratam e por que são elogiáveis.

domingo, 2 de agosto de 2009

Eu, Etiqueta

Eu tenho um problema. Eu não me encaixo nesta sociedade binária em que só vive em paz quem anda com uma etiqueta na testa e um rótulo na bunda. E isso tá me incomodando.

Pedem que eu mude o meu sotaque, que eu decida se sou gay ou hétero e que eu faça a sobrancelha para ficar "mais limpo" no vídeo. E eu sou tão influenciável que... agora me sinto nu com a sobrancelha feita.

E os óculos são como um tapassexo no meu rosto.

Desculpem, eu não tenho etiqueta nem rótulo.

Não, eu não sou feito em série já com defeito de fábrica.

Eu sou. Artesanal e inacabado.

Já o título é cópia barata. É o nome de uma poesia do Drummond que termina assim:

Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

sábado, 1 de agosto de 2009

Poesia

"você está me comendo tanto pelos olhos/ que eu já não tenho forças/ para te alimentar"

Stela do Patrocinio

Vida longa à TV Brasil

Desculpem, mas terei que ser sincero e sério agora _apesar de a briga ser de gente grande e eu viver no baixo clero da reportagem assalariada.

Mas, então e enfim:

A Folha de S.Paulo age contra a democracia quando pede o fechamento da TV Pública. Desrespeita quem vê a TV Brasil, mesmo que a audiência seja ínfima, como afirma o jornal, e que os problemas técnicos existam.O editorial publicado nesta sexta-feira 31 esquece que a comunicação pública ocupa um espaço essencial na televisão brasileira. A Folha _“um jornal a serviço do Brasil“_ deve defender a melhoria da TV Brasil, cobrar, sim, o bom investimento do dinheiro público, criticar o suposto aparelhamento, mas nunca exigir irresponsavelmente o seu fechamento.A TV Brasil tem uma programação cultural e educativa reconhecida pelo próprio jornal, que a recomenda na sua página de televisão do suplemento Ilustrada. Para citar apenas um programa, lembro a versão televisiva do “Observatório da Imprensa“, que não teria espaço numa televisão comercial, por exemplo. Isso porque a imprensa brasileira ainda é alérgica à auto-crítica, e a televisão comercial vive a lógica da audiência _aquela que produz lixos televisivos, como reality show e novelas da Glória Peres, e que vai conseguir no Congresso Nacional a aberração de unificar o fuso horário de um país cuja dimensão abraça vários meridianos.

Bom, discutiria mais; prefiro não aborrecer vocês.

Berço

Muito do pouco que sou aprendi com meus pais. São lições dadas sempre com frases prontas _simples e curtas, como é a própria vida.

As duas que mais gosto de mentalizar são:

"O mundo é grande."
É a constatação óbvia de que a semente que não brotou aqui pode virar uma árvore lá na frente. Se o amor, o trabalho, os amigos, nada deu certo, não esquente, olhe pra frente, caminhe com esperança, porque tudo pode mudar.

"Só gosto de quem gosta de mim."
É uma injeção de autoestima. É natural que a gente só goste de quem gosta da gente. O resto é cumprimento por educação. Estender assunto ou artificializar laço com quem claramente não gosta da gente é perda de tempo.

Silêncio

É preciso preservar outrem e se preservar. E a melhor maneira de fazer isso é ficar em silêncio. Mas o silêncio tem que ser silencioso, o mais perto possível daquele silêncio que não diz nada, que não permite interpretações, o silêncio modesto e tímido. Falo (!, preciso ficar em silêncio), repito, falo do silêncio que só quer dizer que NÃO se quer dizer coisa nenhuma. Silêncio bom é aquele que entra mudo e sai calado.

Rachel de Queiroz dizia invejar quem tinha fé. Faz sentido. Fé é o último recurso quando todos os outros se esgotam. E paciência, esperança e dinheiro são coisas que evaporam rapidamente. Já a fé _quando se tem fé_ é sólida. Só a fé dá a certeza de que se pode ser e ter aquilo de que se necessita.