Vô Filemon, 87 anos de malandragem sertaneja:
"O mundo é que nem buchada, só vai com cachaça."
"Quem ouve o que os outros dizem ou é doido, ou quer morrer."
domingo, 27 de setembro de 2009
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Tempo, tempo, mano velho
Gosto do tempo como está hoje: indeciso: nem quente, nem frio, nem chuvoso, nem ensolarado.
É um tempo encoberto, tímido e manso, como tudo de que gosto mais na vida.
Ele não inventa, nem venta, tem a umidade e a luminosidade necessárias para um dia sem sobressaltos.
É um tempo encoberto, tímido e manso, como tudo de que gosto mais na vida.
Ele não inventa, nem venta, tem a umidade e a luminosidade necessárias para um dia sem sobressaltos.
domingo, 20 de setembro de 2009
Festa
Rolou uma festa sábado à noite numa mansão do Humaitá, o bairro do Rio que fica embaixo do suvaco direito do Cristo. A vista é massa: o céu preto, com a silhueta da Serra da Carioca no horizonte próximo e o Cristo brancão cintilando lá em cima.
Aqui embaixo, na festa, também tava legal. Era o lançamento de uma mostra de cinema argentino, em cartaz no CCBB. Muitos artistas, atores, atrizes, cineastas, jornalistas, escritores, bloggeiros, produtores; todos devidamente desconhecidos. A galera não era nada absurdete. Era uma gente inteligente e bem vestida, mas que chega na humildade, tem educação, fala em tom normal, não grita, não faz escândalo, não causa.
O único momento de afetação foi protagonizado pela protagonista da nova novela das oito, esta redundante "Viver a Vida", a tal de Thais Araújo. Ela chegou com o namorado, Lázaro Ramos, olhou pra cara de todo mundo, não disse nada e vazou rindo. Superesnobe!
Mas o melhor da festa era a caipirinha de cachaça Montanhesa, de Minasssss, sô. Masssssssssa! Cachaça mineira é foda. Bebi todas (tangerina, lima da pérsia, morango) e nada de ressaca no outro dia.
Aqui embaixo, na festa, também tava legal. Era o lançamento de uma mostra de cinema argentino, em cartaz no CCBB. Muitos artistas, atores, atrizes, cineastas, jornalistas, escritores, bloggeiros, produtores; todos devidamente desconhecidos. A galera não era nada absurdete. Era uma gente inteligente e bem vestida, mas que chega na humildade, tem educação, fala em tom normal, não grita, não faz escândalo, não causa.
O único momento de afetação foi protagonizado pela protagonista da nova novela das oito, esta redundante "Viver a Vida", a tal de Thais Araújo. Ela chegou com o namorado, Lázaro Ramos, olhou pra cara de todo mundo, não disse nada e vazou rindo. Superesnobe!
Mas o melhor da festa era a caipirinha de cachaça Montanhesa, de Minasssss, sô. Masssssssssa! Cachaça mineira é foda. Bebi todas (tangerina, lima da pérsia, morango) e nada de ressaca no outro dia.
Simplesmente ela
Acabo de assistir à peça "Simplesmente, eu: Clarice Lispector", um monólogo interpretado por Beth Goulart. Fosse eu analfabeto ou sequer tivesse lido uma frase de Clarice, mesmo assim gostaria do que ouvi e, sobretudo, vi.
A luz da peça causa dois momentos hipnóticos. O primeiro é quando Beth entra em cena fumando. Clarice tragava como ninguém, na quantidade e na qualidade do ato. É a primeira cena, a personagem não diz nada, a luz diz tudo: solidão.
A última cena também é hipnótica, depois de falar da morte, Clarice diz "Amém" e morre. É o fim, mas ainda não convoca o aplauso. A luz vai do clarão ao breu e volta pro cinza. Beth/Clarice vira um silhueta fatasmagórica no centro do palco. Bravo!
A luz da peça causa dois momentos hipnóticos. O primeiro é quando Beth entra em cena fumando. Clarice tragava como ninguém, na quantidade e na qualidade do ato. É a primeira cena, a personagem não diz nada, a luz diz tudo: solidão.
A última cena também é hipnótica, depois de falar da morte, Clarice diz "Amém" e morre. É o fim, mas ainda não convoca o aplauso. A luz vai do clarão ao breu e volta pro cinza. Beth/Clarice vira um silhueta fatasmagórica no centro do palco. Bravo!
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
9/9/2009
Superstição é coisa que não me comove. Já editei horóscopo, e cada linha, se bem lida, exala puro charlatanismo. Mas acabo de assistir a uma reportagem do Fabio Judice, repórter gente boa, sobre a data de hoje: 9/9/2009. Resumindo, um engenheiro e numerólogo (?!) disse que essa repetição de números têm um significado, sim: revolução. Como me convém, achei supimpa, talvez premonitório do que sucederá esses dias de merda.
Nietzsche
"Os homens, em sua maioria, estão ocupados demais para serem malvados."
"Elogiamos e censuramos, a depender de qual nos dá mais oportunidade de fazer brilhar nosso julgamento."
Palavras do velho Friedrich.
"Elogiamos e censuramos, a depender de qual nos dá mais oportunidade de fazer brilhar nosso julgamento."
Palavras do velho Friedrich.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Aluguel foi o cão que inventou
Moro num conjugado em Copacabana que fica na avenida da putaria e tem vista para a parede do prédio vizinho, mas a uma quadra da praia. Isso leva a minha locatária pensar que tenho uma árvore de dinheiro plantada na sacada que não existe.
Hoje, fui pagar o aluguel _900 pratas_, e a d. Selma, procuradora da dona do apê, comunicou que, a partir de dezembro, sobe pra MIL. Afinal, é alta temporada. De roubo, só pode.
Argumentei: o índice de reajuste de preços do aluguel caiu, temos uma deflação.
D. Selma: mas o preço dos imóveis subiu.
Por quê? Só o Rio consegue se valorizar num mundo que vive a maior crise pós-1929 e justamente provocada pela supervalorização dos imóveis.
Será que o preço é indexado às novelas da Globo? E vem aí mais uma merda escrita pelo Manoel Carlos, direto do Leblon...
Hoje, fui pagar o aluguel _900 pratas_, e a d. Selma, procuradora da dona do apê, comunicou que, a partir de dezembro, sobe pra MIL. Afinal, é alta temporada. De roubo, só pode.
Argumentei: o índice de reajuste de preços do aluguel caiu, temos uma deflação.
D. Selma: mas o preço dos imóveis subiu.
Por quê? Só o Rio consegue se valorizar num mundo que vive a maior crise pós-1929 e justamente provocada pela supervalorização dos imóveis.
Será que o preço é indexado às novelas da Globo? E vem aí mais uma merda escrita pelo Manoel Carlos, direto do Leblon...
Entrevistar gente sangue-bom, uma recompensa do jornalismo
Domingo, tive a oportunidade de entrevistar o pedagogo Jefferson Maia, tetraplégico que dirige o próprio carro, algo raríssimo para o tipo de lesão que ele tem. Foi o maior exemplo que a gente deu na matéria sobre independência, uma pensata usando o gancho do Sete de Setembro.
Acima, estão as fotos feitas pela máquina do Jeff. Chovia em Copa e, mesmo assim, ele fez questão de conversar com a gente e de registrar o momento. O cinegrafista é o Rogério Maia e quem segura o guarda-chuva é o Janjão.
Valeu, irmão.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Clarice vem aí
"Ela escrevia em guardanapos, anotava em cheques - era um caos", diz Benjamin Moser, tradutor e crítico literário, autor de "Why This World", uma biografia de Clarice Lispector lançada nos EUA que deve chegar ao Brasil em novembro, via editora Cosac Naify.
Segundo o NYT, o livro revela que a mãe da escritora foi estuprada. E ela teria engravido de Clarice para se curar, seguindo uma crença dos judeus da Ucrânia.
http://www.nytimes.com/2009/08/23/books/review/Eberstadt-t.html?pagewanted=1&_r=1&sq=Clarice%20Lispector&st=cse&scp=1
Segundo o NYT, o livro revela que a mãe da escritora foi estuprada. E ela teria engravido de Clarice para se curar, seguindo uma crença dos judeus da Ucrânia.
http://www.nytimes.com/2009/08/23/books/review/Eberstadt-t.html?pagewanted=1&_r=1&sq=Clarice%20Lispector&st=cse&scp=1
Em alguma moita entre Santos e São Paulo, há exatos 187 anos
É mesmo o país da piada pronta, como diz o Zé Simão:
"Já havíamos subido a serra quando d. Pedro se queixou de ligeiras cólicas intestinais, precisando por isso apear-se, para empregar os meios naturais de aliviar seus sofrimentos."
Trecho do relato da Independência feito por Manuel Marcondes de Oliveira Melo, que ganharia o título de barão de Pindamonhangaba do Império.
"Já havíamos subido a serra quando d. Pedro se queixou de ligeiras cólicas intestinais, precisando por isso apear-se, para empregar os meios naturais de aliviar seus sofrimentos."
Trecho do relato da Independência feito por Manuel Marcondes de Oliveira Melo, que ganharia o título de barão de Pindamonhangaba do Império.
A melhor coisa que NÃO me aconteceu
A expressão é do ator Clive Owen, segundo a Martha Medeiros. Foi a resposta que ele deu depois que encheram o saco dizendo que ele seria o próximo James Bond, quando, no fim, o papel ficou com o Daniel Craig, e todo mundo sabe, e todo mundo não aguenta mais ver.
É uma frase do carai! São incontáveis as coisas que NÃO acontecem. E só depois a gente se dá conta de como foi bom e determinante para que outras coisas acontecessem.
POR ISSO:
Tomara que isso NÃO aconteça!
Mal posso esperar para ver o que vai acontecer depois que isso NÃO acontecer!
Estremeço de prazer só em pensar no acontecimento que sucederá o NÃO acontecimento!
É uma frase do carai! São incontáveis as coisas que NÃO acontecem. E só depois a gente se dá conta de como foi bom e determinante para que outras coisas acontecessem.
POR ISSO:
Tomara que isso NÃO aconteça!
Mal posso esperar para ver o que vai acontecer depois que isso NÃO acontecer!
Estremeço de prazer só em pensar no acontecimento que sucederá o NÃO acontecimento!
domingo, 6 de setembro de 2009
Goldin
Dos correios sentimentais que há na imprensa brasileira, o único que, na minha opinião, vale ler é o do psicanalista Alberto Goldin, que o Globo publica na sua revista dominical.
Neste 6 de setembro, ele encerra o texto com a seguinte frase: "Os conflitos humanos são difíceis, dolorosos e, às vezes, SEM solução, mas, ainda assim, são o melhor patrimônio dos seres vivos".
Neste 6 de setembro, ele encerra o texto com a seguinte frase: "Os conflitos humanos são difíceis, dolorosos e, às vezes, SEM solução, mas, ainda assim, são o melhor patrimônio dos seres vivos".
Pilotando o fogão
Tenho aqui no meu cafofo em Copacabana um fogão de duas bocas com chamas generosas e azuladas. Resolvi aproveitar essa energia calórica para economizar a grana que gasto comendo fora _mesmo que isso aumente minha pegada ecológia. Por enquanto, o cardápio é espartano: arroz branco, bife e macarrão. Servidos?
Um OFF, uma SONORA
Nesse sábado, fui fazer uma matéria sobre uma nau - réplica das quinhentistas - que está atracada no porto do Rio. Passei a tarde inteira ouvindo piadas infames: "E aí, vai fazer a nau, né?", "Então, deu pra fazer a nau?". Foi uma chuva de trocadilho até que o editor-chefe do telejornal veio com mais uma piadinha, a que respondi: "Sim, fiz, doeu e vou ter que escrever o OFF em pé".
Ainda sobre o fim de semana de plantão, hoje, domingo, peguei um VT punk pra fazer. Pauta: no dia da independência, vamos ouvir pessoas que se tornaram independente. Decupei quatro fitas de personagens com sonoras fracas e imagens idem. Minha missão era entrevistar OUTRO personagem, gravar uma passagem e costurar o frankenstein.
A pauta bomba saiu da cabeça da chefia, passou por três repórteres e caiu no meu colo. Quando a nobreza pensa, não adianta, sempre sobra pro baixo clero da reportagem assalariada.
Ainda sobre o fim de semana de plantão, hoje, domingo, peguei um VT punk pra fazer. Pauta: no dia da independência, vamos ouvir pessoas que se tornaram independente. Decupei quatro fitas de personagens com sonoras fracas e imagens idem. Minha missão era entrevistar OUTRO personagem, gravar uma passagem e costurar o frankenstein.
A pauta bomba saiu da cabeça da chefia, passou por três repórteres e caiu no meu colo. Quando a nobreza pensa, não adianta, sempre sobra pro baixo clero da reportagem assalariada.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
deadline
Tô pela hora da morte depois que voltei das férias. É que comecei a trabalhar de manhã, na reportagem do telejornal local, que tem fechamento às 10h30min. A essa hora muita gente dorme sem nem cogitar em rever o mundo. É o deadline mais apertado que já enfrentei. Pior: costumo ter a companhia de gente histérica, do motorista ao editor. E, como é de conhecimento até do mundo mineral, os histéricos nasceram para tirar a sua paz de espírito.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
...
"Sou uma espécie de paranoico ao contrário. Suspeito que as pessoas conspiram para me fazer feliz." J. D. Salinger
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
No Cariri
Andava com saudade deste sol faiscante do Crato. É sob ele que flano pelo centro da cidade, o que se faz em dez minutos, em busca de rostos, gostos e cheiros conhecidos e, claro, de frases e almas surpreendentes. Nem sempre se encontram.
Tenho lambido meu afilhado diariamente. Ele parece que já me reconhece. Sorri gratuitamente para mim. O gostoso do sorriso de uma criança é que nele não vêm uma segunda ou terceira intenções. E é um sorriso banguela muito mais bonito do que qualquer dentadura reluzente. Os dentes nascem e com ele a malícia que corrompe o sorriso.
Tenho lambido meu afilhado diariamente. Ele parece que já me reconhece. Sorri gratuitamente para mim. O gostoso do sorriso de uma criança é que nele não vêm uma segunda ou terceira intenções. E é um sorriso banguela muito mais bonito do que qualquer dentadura reluzente. Os dentes nascem e com ele a malícia que corrompe o sorriso.
Cortázar
Acabei de ler "A Volta ao Dia em 80 Mundos". Foi a primeira vez que li Julio Cortázar. O livro é uma sucessão de impressões do escritor belgo-argentino sobre literatura, música, comportamento. Ainda não entendi bem o que ele chama de cronópio, mas vou me identificando com algumas definições.
Eis um trecho extraído da página 172:
"Nietzche, que era um cronópio como poucos, disse que só os imbecis não se contradizem três vezes por dia. Não se referia às falsas contradições que quando se arranha um pouco são hipocrisia (o senhor que dá gorjeta na rua e explora cinquenta operários em sua fábrica de guarda-chuvas), mas à disponibilidade de bater com os quatro corações do polvo cósmico que funciona cada um por seu lado e cada um tem a sua razão e impulsiona o sangue e sustenta o universo, esse camaleonismo que todo leitor encontrará e amará ou odiará neste livro e em qualquer livro em que o poeta rejeita o coleóptero."
OU
"... ninguém pode saber quantos mundos há no dia de um cronópio ou de um poeta, só os burocratas do espírito decidem que seu dia se compõe de um número fixo de elementos..."
Tem muitas outras incontáveis coisas nas 179 páginas que gostaria de reproduzir aqui. O livro é da editora Civilização Brasileira, uma edição pocket do mesmo comprimeiro daqueles da L&PM, porém mais estreita. É um tamanho que cabe MESMO no bolso.
Eis um trecho extraído da página 172:
"Nietzche, que era um cronópio como poucos, disse que só os imbecis não se contradizem três vezes por dia. Não se referia às falsas contradições que quando se arranha um pouco são hipocrisia (o senhor que dá gorjeta na rua e explora cinquenta operários em sua fábrica de guarda-chuvas), mas à disponibilidade de bater com os quatro corações do polvo cósmico que funciona cada um por seu lado e cada um tem a sua razão e impulsiona o sangue e sustenta o universo, esse camaleonismo que todo leitor encontrará e amará ou odiará neste livro e em qualquer livro em que o poeta rejeita o coleóptero."
OU
"... ninguém pode saber quantos mundos há no dia de um cronópio ou de um poeta, só os burocratas do espírito decidem que seu dia se compõe de um número fixo de elementos..."
Tem muitas outras incontáveis coisas nas 179 páginas que gostaria de reproduzir aqui. O livro é da editora Civilização Brasileira, uma edição pocket do mesmo comprimeiro daqueles da L&PM, porém mais estreita. É um tamanho que cabe MESMO no bolso.
Do Cariri
Tô sem internet na casa de meus pais, o que compromete a atualização do blog. E, sinceramente, tenho pouca coisa pra contar e ando sem inspiração para cavar o lírico do cotidiano. Tô de férias, carai!
A viagem Rio - Crato durou 15 horas. Foram cinco de avião, no trajeto Rio-Brasília-Fortaleza. Parei na capital para almoçar na casa de meu padrinho e pegar uma encomenda.
Parêntesis: minha família tem a mania de mandar coisas que podem ser compradas na esquina. É chato e só a vontade de dar trabalho aos outros justifica. Mas tem que levar e trazer encomenda, sob pena de provocar antipatias.
Depois de pegar a encomenda fui para a rodoviária de Fortaleza. Havia dois horários de ônibus para o Crato: às 21h, um executivo que, segundo o vendedor de passagens, não parava; às 20h, um pinga. Tive um acesso de masoquismo e comprei cadeira neste ônibus. Fiz pior: no assento 44, em frente ao banheiro. Sobrevivi ao teste de paciência. Foram DEZ horas na BR-116 - que é um buraco com trechos de asfalto - parando em quase todos os municípios: Limoeiro do Norte, Jagaribe, Icó, Aurora, Barro, Mauriti, Porteiras (que fica ao sul do Crato, ou seja, eu passei para depois voltar), Missão Velha, Barbalha, Juazeiro do Norte e, last but not least, Crato.
A viagem Rio - Crato durou 15 horas. Foram cinco de avião, no trajeto Rio-Brasília-Fortaleza. Parei na capital para almoçar na casa de meu padrinho e pegar uma encomenda.
Parêntesis: minha família tem a mania de mandar coisas que podem ser compradas na esquina. É chato e só a vontade de dar trabalho aos outros justifica. Mas tem que levar e trazer encomenda, sob pena de provocar antipatias.
Depois de pegar a encomenda fui para a rodoviária de Fortaleza. Havia dois horários de ônibus para o Crato: às 21h, um executivo que, segundo o vendedor de passagens, não parava; às 20h, um pinga. Tive um acesso de masoquismo e comprei cadeira neste ônibus. Fiz pior: no assento 44, em frente ao banheiro. Sobrevivi ao teste de paciência. Foram DEZ horas na BR-116 - que é um buraco com trechos de asfalto - parando em quase todos os municípios: Limoeiro do Norte, Jagaribe, Icó, Aurora, Barro, Mauriti, Porteiras (que fica ao sul do Crato, ou seja, eu passei para depois voltar), Missão Velha, Barbalha, Juazeiro do Norte e, last but not least, Crato.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
A causa à espera de um(a) líder
A ex-ministra e senadora Marina Silva (PT-AC) pode se filiar ao PV para se candidatar à Presidência com um discurso verde, de desenvolvimento com sustentabilidade ambiental.
Não existe vácuo na política. E muita gente (eu, inclusive) quer votar em quem pensa em produzir emitindo menos carbono, com energias renováveis e preservação ambiental.
O PV disse que tem uma pesquisa nacional apontando 12% de intenções de voto na companheira de Chico Mendes. Não ganha a eleição, mas faz um estrago, principalmente no discurso feminista da candidata do Lula, a Dilma Rousseff. Mas Marina também deve pescar votos à direita. Tanto a chefe da Casa Civil, quanto o governador José Serra, possível candidato da oposição, entoa a mesma ladainha: crescimento, juros menores e petróleo. Agem como se a Amazônia fosse deles.
Não existe vácuo na política. E muita gente (eu, inclusive) quer votar em quem pensa em produzir emitindo menos carbono, com energias renováveis e preservação ambiental.
O PV disse que tem uma pesquisa nacional apontando 12% de intenções de voto na companheira de Chico Mendes. Não ganha a eleição, mas faz um estrago, principalmente no discurso feminista da candidata do Lula, a Dilma Rousseff. Mas Marina também deve pescar votos à direita. Tanto a chefe da Casa Civil, quanto o governador José Serra, possível candidato da oposição, entoa a mesma ladainha: crescimento, juros menores e petróleo. Agem como se a Amazônia fosse deles.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Bem-aventurados aqueles que sabem viver
Economizei anos de análise agora há pouco. Entrevistei um psicanalista (!!) gay que adotou um menino. Ele disse que todo pai ou mãe, mesmo que biológico, deveria "adotar" o próprio filho. Dar amor, carinho, proteger, enfim, tentar exercer o papel de pai/mãe com o máximo de competência possível. Segundo ele, isso evita muito problema mais tarde.
(parêntesis): Lembrei o que disse, recentemente, o ator Wagner Moura, que é pai. Ele afirmou que a violência no Brasil tem muito a ver com a ausência dos pais em todos os sentidos. Super concordo.
Continuando:
O filho adotivo, que já tem 13 anos, insistiu em falar. Fiquei surpreso: adolescente tem vergonha de câmera. Fissurado em computador e flamenguista doente, ele disse que é "zoado" pelos "amigos" por ter dois pais (o psicanalista tem um companheiro), mas que tenta explicar pros colegas que isso é natural. E mais: disse que ama muito os pais e que quer viver com eles "até morrer".
Engasguei. O garoto sorriu. Deve ter visto que eu também preciso de família, de pai, de mãe, de colo. Ele já tem, obrigado. E você?
(parêntesis): Lembrei o que disse, recentemente, o ator Wagner Moura, que é pai. Ele afirmou que a violência no Brasil tem muito a ver com a ausência dos pais em todos os sentidos. Super concordo.
Continuando:
O filho adotivo, que já tem 13 anos, insistiu em falar. Fiquei surpreso: adolescente tem vergonha de câmera. Fissurado em computador e flamenguista doente, ele disse que é "zoado" pelos "amigos" por ter dois pais (o psicanalista tem um companheiro), mas que tenta explicar pros colegas que isso é natural. E mais: disse que ama muito os pais e que quer viver com eles "até morrer".
Engasguei. O garoto sorriu. Deve ter visto que eu também preciso de família, de pai, de mãe, de colo. Ele já tem, obrigado. E você?
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Atenção, senhores passageiros
Acima, eis o Quixadá no lusco-fusco, terra dos monólitos, terra dos Queiroz, terra que vejo da janela do ônibus em direção ao Cariri do meu Padim.
Fortaleza - Maracanaú - Quixadá - Quixeramobim - Acopiara - Iguatu - Várzea Alegre - Farias Brito - Crato.
O negrito informa: o Ceará é indígena, aliás, Siará, o canto da jandaia em tupi.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
"Enquanto o sol não vem"
"Enquanto o sol não vem" é um filme que eu entenderia se fosse francês. Como não sou, gostei sem motivo para tanto. É ruim, mas é bom, entende?
Foi a primeira vez que vi Agnes Jaoui, que atua, dirige e fala de política nas horas vagas. É dela esta frase do carai: "Acho estranho rico pedir voto a pobre". No filme, Jaoui interpreta uma feminista que vira personagem de um documentário feito por dois malucos que ainda estão aprendendo a operar a câmera.
Foi a primeira vez que vi Agnes Jaoui, que atua, dirige e fala de política nas horas vagas. É dela esta frase do carai: "Acho estranho rico pedir voto a pobre". No filme, Jaoui interpreta uma feminista que vira personagem de um documentário feito por dois malucos que ainda estão aprendendo a operar a câmera.
"À Deriva"
Quero falar apenas uma coisa de "À Deriva", novo filme de Heitor Dhalia, o mesmo de "Cheiro do Ralo": as locações valem cada real dos 18 cobrados no Arteplex de Botafogo. Ver Búzios e Arraial do Cabo pela película dá vontade de correr e abraçar o mar.
Um pouco de tudo, um muito de nada

Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Oscar Wilde, Fause Haten e Luiz Gonzaga têm a ver comigo.
Meu alterego está em qualquer coisa de intermédio entre esses caras. Ou não.
Até eu me espantei com o narcisismo deste post. Viver numa sociedade liberal depressiva (Roudinesco,1999) não faz bem pra cabeça, nem pra sobrancelha.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Hegemonia
Nesse domingo, foi a vez de o Estadão pedir o fechamento da TV Brasil _a Folha já havia feito isso na sexta-feira. Os dois jornalões afirmam que a emissora é um desperdício de dinheiro público.
Já argumentei que a televisão pública preenche espaços essenciais na comunicação brasileira, entre eles a divulgação de produtos de qualidade intelectual superior à tríade reality show, dramaturgia foletinesca e jornalismo factual, que abarrotam o veículo nos dias que correm.
Mas quero agora responder brevemente ao subtexto dos dois editoriais. Há muito, os jornalões perderam o tempero da civilidade nas páginas opinativas. É preciso mais elegância e menos ponto de exclamação. Folha e Estadão parecem imprimir a histeria de uma elite paulistana que está perdendo sua prerrogativa de lançar modas, tendências e valores. Não adianta, hoje, a vanguarda do país é a Banda Calypso (Digite no Google "Chris Anderson", "Free" e "Calypso").
O Brasil é cada vez mais Exu e cada vez menos Praça da Sé _também no sentido religioso. Saravá.
Já argumentei que a televisão pública preenche espaços essenciais na comunicação brasileira, entre eles a divulgação de produtos de qualidade intelectual superior à tríade reality show, dramaturgia foletinesca e jornalismo factual, que abarrotam o veículo nos dias que correm.
Mas quero agora responder brevemente ao subtexto dos dois editoriais. Há muito, os jornalões perderam o tempero da civilidade nas páginas opinativas. É preciso mais elegância e menos ponto de exclamação. Folha e Estadão parecem imprimir a histeria de uma elite paulistana que está perdendo sua prerrogativa de lançar modas, tendências e valores. Não adianta, hoje, a vanguarda do país é a Banda Calypso (Digite no Google "Chris Anderson", "Free" e "Calypso").
O Brasil é cada vez mais Exu e cada vez menos Praça da Sé _também no sentido religioso. Saravá.
Filmes
Assisti a dois "filmes de arte" nesse fim de semana: "Enquanto o sol não vem" e "À Deriva". Já, já, direi de que se tratam e por que são elogiáveis.
domingo, 2 de agosto de 2009
Eu, Etiqueta
Eu tenho um problema. Eu não me encaixo nesta sociedade binária em que só vive em paz quem anda com uma etiqueta na testa e um rótulo na bunda. E isso tá me incomodando.
Pedem que eu mude o meu sotaque, que eu decida se sou gay ou hétero e que eu faça a sobrancelha para ficar "mais limpo" no vídeo. E eu sou tão influenciável que... agora me sinto nu com a sobrancelha feita.
E os óculos são como um tapassexo no meu rosto.
Desculpem, eu não tenho etiqueta nem rótulo.
Não, eu não sou feito em série já com defeito de fábrica.
Eu sou. Artesanal e inacabado.
Já o título é cópia barata. É o nome de uma poesia do Drummond que termina assim:
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
Pedem que eu mude o meu sotaque, que eu decida se sou gay ou hétero e que eu faça a sobrancelha para ficar "mais limpo" no vídeo. E eu sou tão influenciável que... agora me sinto nu com a sobrancelha feita.
E os óculos são como um tapassexo no meu rosto.
Desculpem, eu não tenho etiqueta nem rótulo.
Não, eu não sou feito em série já com defeito de fábrica.
Eu sou. Artesanal e inacabado.
Já o título é cópia barata. É o nome de uma poesia do Drummond que termina assim:
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
sábado, 1 de agosto de 2009
Poesia
"você está me comendo tanto pelos olhos/ que eu já não tenho forças/ para te alimentar"
Stela do Patrocinio
Vida longa à TV Brasil
Desculpem, mas terei que ser sincero e sério agora _apesar de a briga ser de gente grande e eu viver no baixo clero da reportagem assalariada.
Mas, então e enfim:
A Folha de S.Paulo age contra a democracia quando pede o fechamento da TV Pública. Desrespeita quem vê a TV Brasil, mesmo que a audiência seja ínfima, como afirma o jornal, e que os problemas técnicos existam.O editorial publicado nesta sexta-feira 31 esquece que a comunicação pública ocupa um espaço essencial na televisão brasileira. A Folha _“um jornal a serviço do Brasil“_ deve defender a melhoria da TV Brasil, cobrar, sim, o bom investimento do dinheiro público, criticar o suposto aparelhamento, mas nunca exigir irresponsavelmente o seu fechamento.A TV Brasil tem uma programação cultural e educativa reconhecida pelo próprio jornal, que a recomenda na sua página de televisão do suplemento Ilustrada. Para citar apenas um programa, lembro a versão televisiva do “Observatório da Imprensa“, que não teria espaço numa televisão comercial, por exemplo. Isso porque a imprensa brasileira ainda é alérgica à auto-crítica, e a televisão comercial vive a lógica da audiência _aquela que produz lixos televisivos, como reality show e novelas da Glória Peres, e que vai conseguir no Congresso Nacional a aberração de unificar o fuso horário de um país cuja dimensão abraça vários meridianos.
Bom, discutiria mais; prefiro não aborrecer vocês.
Mas, então e enfim:
A Folha de S.Paulo age contra a democracia quando pede o fechamento da TV Pública. Desrespeita quem vê a TV Brasil, mesmo que a audiência seja ínfima, como afirma o jornal, e que os problemas técnicos existam.O editorial publicado nesta sexta-feira 31 esquece que a comunicação pública ocupa um espaço essencial na televisão brasileira. A Folha _“um jornal a serviço do Brasil“_ deve defender a melhoria da TV Brasil, cobrar, sim, o bom investimento do dinheiro público, criticar o suposto aparelhamento, mas nunca exigir irresponsavelmente o seu fechamento.A TV Brasil tem uma programação cultural e educativa reconhecida pelo próprio jornal, que a recomenda na sua página de televisão do suplemento Ilustrada. Para citar apenas um programa, lembro a versão televisiva do “Observatório da Imprensa“, que não teria espaço numa televisão comercial, por exemplo. Isso porque a imprensa brasileira ainda é alérgica à auto-crítica, e a televisão comercial vive a lógica da audiência _aquela que produz lixos televisivos, como reality show e novelas da Glória Peres, e que vai conseguir no Congresso Nacional a aberração de unificar o fuso horário de um país cuja dimensão abraça vários meridianos.
Bom, discutiria mais; prefiro não aborrecer vocês.
Berço
Muito do pouco que sou aprendi com meus pais. São lições dadas sempre com frases prontas _simples e curtas, como é a própria vida.
As duas que mais gosto de mentalizar são:
"O mundo é grande."
É a constatação óbvia de que a semente que não brotou aqui pode virar uma árvore lá na frente. Se o amor, o trabalho, os amigos, nada deu certo, não esquente, olhe pra frente, caminhe com esperança, porque tudo pode mudar.
"Só gosto de quem gosta de mim."
É uma injeção de autoestima. É natural que a gente só goste de quem gosta da gente. O resto é cumprimento por educação. Estender assunto ou artificializar laço com quem claramente não gosta da gente é perda de tempo.
As duas que mais gosto de mentalizar são:
"O mundo é grande."
É a constatação óbvia de que a semente que não brotou aqui pode virar uma árvore lá na frente. Se o amor, o trabalho, os amigos, nada deu certo, não esquente, olhe pra frente, caminhe com esperança, porque tudo pode mudar.
"Só gosto de quem gosta de mim."
É uma injeção de autoestima. É natural que a gente só goste de quem gosta da gente. O resto é cumprimento por educação. Estender assunto ou artificializar laço com quem claramente não gosta da gente é perda de tempo.
Silêncio
É preciso preservar outrem e se preservar. E a melhor maneira de fazer isso é ficar em silêncio. Mas o silêncio tem que ser silencioso, o mais perto possível daquele silêncio que não diz nada, que não permite interpretações, o silêncio modesto e tímido. Falo (!, preciso ficar em silêncio), repito, falo do silêncio que só quer dizer que NÃO se quer dizer coisa nenhuma. Silêncio bom é aquele que entra mudo e sai calado.
Fé
Rachel de Queiroz dizia invejar quem tinha fé. Faz sentido. Fé é o último recurso quando todos os outros se esgotam. E paciência, esperança e dinheiro são coisas que evaporam rapidamente. Já a fé _quando se tem fé_ é sólida. Só a fé dá a certeza de que se pode ser e ter aquilo de que se necessita.
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